9.2.07
eu acho que sou outro.
não pareço mais o mesmo de dois anos atrás, com meus pensamentos sombrios e análises derrotistas. tenho tido menos tempo livre para ser assim. mudei um tanto, me tornei um híbrido de ocupação sem lazer e felicidade através de posses. hoje sou tudo aquilo que eu temia ser quando era mais novo: monocromático, tedioso, semi-mudo e superficial. e agora mesmo caí em mim e vi que nada do que construí esse tempo todo tem algum sentido pra mim. vivo no piloto-automático, concordando e trabalhando, sem me importar com coisas simples como as minhas observações e os meus pequenos prazeres pessoais.
meu cotidiano é uma merda hoje em dia. não por culpa de ninguém, a não ser a minha mesma, afinal em essência eu não mudei muito. continuo levando tudo nas costas aceitando as linhas escritas no parágrafo da minha vida (o de 3 linhas) situado no rodapé de uma página perdida do livro da eternidade. encontrei o amor, banalizei-o, encontrei minha vocação profissional e pouco caso fiz dela, aceitei meus talentos e prostituí eles. hoje me encontro morto por dentro de uma couraça de rubor e saúde, emitindo longas e falsas gargalhadas, fingindo ser alguém que não sou só porque me é conveniente sê-lo. e onde quero chegar com isso tudo, caro leitor? a resposta é simples, porém só mesmo meus velhos fantasmas para assombrarem a luz que me guia: o meu próprio fim.
não que eu romantize a morte, a MINHA morte. embora ela tenha seu charme, prefiro pensar no fim como como algo inexorável, que nem uma fortíssima força de vontade poderia quebrar. ele obviamente, contrário ao que muitas pessoas pensam e teimam em garantir, não é por mim escrito. eu escrevo parcas linhas em um blog, não meu próprio destino. o fim é certo, ele está lá, eu vou até ele querendo ou não. o que realmente importa nesse ínterim é justamente tudo o que eu costumava observar em minha própria vida: as coisas, as formas, os sentimentos, as vontades, os prazeres. e eu não mais os observo da mesma forma, apesar de ter conseguido superar a escuridão que me contornava. superei-a e engoli-a. hoje nada mais sou que uma silhueta sombria num mundo habitado por lindos coelhos da páscoa onde todo dia é natal e as pessoas andam em pula-pulas lambendo enormes pirulitos furta-cor. e eu sigo vendado por minha ausência de mim mesmo.
eu continuo o mesmo.
no final da análise, eu acabei não mudando. apenas suguei a aura de escuridão que eu próprio emitia. confinei tudo em meu coração amargo e sonolento, que teima em seguir rumo a um fim que não seja assim tão ruim, mesmo sabendo que isso é prática e tecnicamente impossível.
pra onde eu for, de onde eu vier, se eu parar, se eu correr, o que eu fizer, onde eu estiver, não há escapatória. a dor somente dói.
e ela há de doer ainda por um bom tempo.
Postado por fael às 8:46 PM |